O Temível Relógio Devorador de Pessoas
"Matamos o tempo e ele nos enterra"
(Machado de Assis)
Mais um cigarro é apagado ao ser esmagado contra o cinzeiro. Mais um copo de café é esvaziado. Embaralho as cartas novamente e começo de novo a jogar paciência enquanto ela não chega.
Levanto e caminho até a cozinha para buscar mais café. Ponho para ferver e enquanto isso tiro uma moeda do bolso e fico jogando cara-e-coroa comigo mesmo sem motivo aparente e não apostando nada.
Um estrondo. Tudo treme, a cafeteira cai no chão e perco a moeda de vista. Outro. Perco o equilíbrio e caio de joelhos. Apóio as mãos no chão e sinto o café queimando-as.
Vou aos tropeços até a sala. Os estrondos são repetidos e as cartas se espalham no chão. O ás de espadas e o coringa se perdem nas areias da pequena ampulheta que eu sempre virava a toda hora para ter a impressão de uma passagem do tempo mais rápida, e que agora não pára de vomitar dunas.
E então surge. Um relógio gigantesco, monstruoso e pulante, que me puxa feito um imã. Sinto minha carne ser retalhada pelas horas, meus ossos esmigalhados pelos segundos e minha degolação sem julgamento pelos minutos.
À meia noite, já fui consumido totalmente. E o relógio volta a realizar sua caçada insaciável de todos os desejos reprimidos, esperas eternas e incompreensões de toda uma vida. Meia-noite e um.

4 Comments:
(Y)
Poderia ser um episódio de alguma série de sci-fi maluca. huahuahua
ficou mass
Eu gostei .. gostei d+ o.O
Parabéns pelo Blog!
Gostei do ritmo do texto, Bêr
Mandou bem, me lembra um curtinha...
beijo :*
wow... intenso.
sabe o que me lembrou?
hum... "réquiem para um sonho"... e a cena em que a geladeira 'ataca' a velhinha lá.
foda.
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