Saturday, March 17, 2007

No Restaurante

Cheguei no restaurante e sentei-me na mesa ao lado do bar. As cadeiras rangiam e os
barulhos ocos dos sapatos começaram a me incomodar logo que pisei naquele lugar, o vai-e-vem dos garçons me deixava tonto, toda aquela pressa necessária que para mim era extremamente descartável. Comecei a ficar preocupado, aquele encontro com meu irmão após sete anos começava a me preocupar. Não sabia se ficaríamos atolados naquele silêncio constrangedor ou se lembraríamos dos velhos tempos fumando cigarros e sorrindo com olhares nostálgicos. Talvez ele tivesse se tornado um daqueles caras engomadinhos que só sabem dar nó em gravata e esquecem-se como se amarra um cadarço de tênis por tanto usarem sapatos chiques e confortáveis. Talvez ele ainda guardasse raiva de mim e cospisse na minha cara. Talvez ele me abraçasse e chorasse no meu ombro. Realmente não sei...

Não sei como eles lidaram com a minha fuga.(Que não foi bem uma fuga). Meu pai provavelmente nunca mais olhará para mim. Minha mãe deve ter ficado seca e constantemente triste. Minha irmã deve ter chorado noites à fio. Meu irmão não deve ter me compreendido, e só. Afinal, quem lidaria bem quando seu irmão foge de casa, manda uma carta somente três anos depois dizendo que está bem, mas somente quatro anos depois quer se encontrar com alguém ? Juro que não entenderia. Como não me entendia na época que fugi. Aliás, não chamo o que fiz de fugir, eu somente precisava dum tempo. O que posso fazer se esse tempo seria sete longos anos ?

Meu pai deve ter chorado mais que todos, mas escondido. Ele não me viu crescer, não me
ensinou a dirigir, não me viu levar namoradas para casa. Sinto pena dele até hoje...Às vezes choro imaginando o que eles passaram, mas isso não acontece faz um bom tempo.

Meu irmão já estava atrasado vinte minutos. Não sabia dizer se isso era normal ou não.
Torturavam-me pensamentos de que eu era somente um estranho agora. Meu peito doía, já havia fumado um maço inteiro de cigarros desde que tinha chegado. A boca estava seca, pedi um
suco de maracujá ao garçom, mas no meio do caminho pedi para ele voltar e me trazer um
uísque. Bebi duma vez só.

O cheiro de gordura que vinha da cozinha estava começando a me deixar enjoado. Senpre odiei
essas lanchonetes de beira de estrada.

Uma hora de atraso. Duas horas de atraso. Três horas de atraso.

Todos os meus cigarros estavam no cinzeiro à mesa. Havia bebido meia garrafa de uísque.
Estava olhando para o chão, levantei o olhar e vi ele parado à porta. Levantei-me e quase
caí pelo efeito da bebida. Ele olhou-me com desprezo, correu em minha direção, abraçou-me,
e saiu porta afora. Nunca mais o vi, nem ninguém de casa. E juro-lhes nada me dói mais que
isso.

4 Comments:

Blogger Lilaaa said...

Doloridamente exelente =D

8:12 PM  
Blogger Unknown said...

Ficou muito bonito, Luden. Você está escrevendo demais mesmo. =)

8:12 PM  
Blogger billy shears said...

dores etílicas.
muito bom :)

8:22 PM  
Anonymous Anonymous said...

quase chorei Lulu...

11:51 AM  

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