Tuesday, August 28, 2007
Sunday, July 15, 2007
Homem de Preto
E eu aqui, me pergunto onde está a linha e qual é a temperatura desse anel. E Cash, decompondo, não pode me ajudar. Minhas camisas sociais são listradas e minha voz não é muito diferente das que você ouve todo dia.
-Bom dia, senhor.
-Oh, bom dia, querida.
Estou no trabalho, enfim, digitando sem parar. Malditos novos registros. Como eu os odeio... E que afirmação tão superficial. Abro um botão da camisa para não transpirar tanto. Maldito verão. Hora de inserir as mesmas afirmações de sempre.
-Deseja alguma coisa, senhor?
-Muitas, na verdade...
-Eu quis dizer, para beber.
-Ah, um chá, por favor.
Por ela. De joelhos por ela todos esses anos. Ela sempre tão cordial, gentil e atenciosa. Tudo o que um homem de preto quer e não consegue. Seja por insegurança, seja por egocentria, quem sabe, pelos dois. Mas ela é casada. Muita bem casada, segundo ela.
Eu... Quatro divórcios. Três filhos para pensão. Mil lágrimas quando tudo deu errado. Duvido que alguma tenha vindo de qualquer uma delas. Todas minhas, com raiva da minha própria pessoa por ser conformado demais mesmo com seus amores.
Já senti a vontade de por um fim nisso tudo. Sair correndo pela rua gritando, evocando meus instintos mais animalescos ao ver qualquer coisa se movendo. Mas antes de qualquer coisa, o homem de preto é um conformista. Ele prefere alimentar culpa a buscar redenção. Ele prefere chorar no fim do casamento a chorar no casório. Deveria parar de escrever sobre mim na terceira pessoa.
Olho pela janela. Um casal se beijando. De um bar alguém ouve um novo hit romântico do verão. Coço o queixo repetidamente e mergulho agora na dúvida de por que uns conseguirem, outros não. Por que uns se apegam tanto, e outros, tão pouco. Desapegado, ou corajoso. É uma das duas coisas que eu queria ser. Encontro-me no estado de conformista e apegado. E me deprime nunca poder tê-la entre os meus braços. De que não irei chorar nosso divórcio, porque nem casar nós iremos.
-Obrigado pelo chá.
-De nada, senhor.
-Então, tem novidades?
-Sim, sim, o gráfico está sendo preparado e...
-Não, eu quis dizer novidades sobre você.
-Sobre mim?
-Sim, sobre você. Você não me perguntou, mas este é um exemplo; ontem comprei um disco do Paulinho da Viola.
-Pois é, senhor, sabe... Eu acabei de me divorciar.
-Mas outro dia, você não disse...
-...Que era bem casada. Sim, mas não tanto, pelo jeito.
Mordo a tampa na caneta.
-Mas foi tão repentino... Vocês não pareciam à beira de um divórcio.
-É... Talvez não. Mas a opinião alheia não correspondia à realidade.
-E que realidade era essa?
Silêncio momentâneo.
-Ah... Eu me sinto tão mal em ficar falando, e causar desconforto no senhor.
-Eu estou interessado em saber.
-Tem certeza?
-Se não quisesse, não perguntava.
-Ele me disse... Que conheceu outra.
-Oh meu Deus... Isso é tão irracional. E racional também.
-Como assim?
-Eu digo, ele tomou a atitude mais racional possível. Não te traiu, não foi movido pelo tesão do momento, acho eu.
-E o irracional?
-O acaso. Você está feliz, com uma vida estruturada, filhos, casa própria... Aí um dos dois conhece alguém e tudo desaba feito um castelo de cartas. – Fiz uma onomatopéia apropriada.
-É... Verdade. – Ela abaixa a cabeça.
-Oh, desculpe... Não queria entristecê-la com minhas divagações. Mas desejo melhor sorte na próxima vez.
-O senhor tem cara de quem já teve essa sorte...
-Não a tive quatro vezes. Não estou a tendo no presente momento.
-E por que não?
-Porque... Não consigo falar.
-Ora, senhor... – ela esboçou um sorriso, angelical – E se essa pessoa gostar de você também?
Encosto e retiro repetidamente o joelho numa das pernas da mesa.
-Eu... Prefiro que seja assim.
-Ora, vamos... Aprenda a confiar nas pessoas...
-Não consigo...
-Por quê?
-Acho que sei que, pela quinta vez, tudo estará caminhando mais uma vez ao fracasso.
-Por que não tentar de novo, senhor?
Dei um soco na mesa. Ela ficou assustada.
-Por que não. Eu já não aguento mais chorar – Soco, soco, soco.- toda noite, porque não tenho alguém, e quando tenho, sei que irei perder. Porque esse é o maldito destino. – Derrubo algumas lágrimas e abaixo a cabeça. Ela põe as mãos sobre meus ombros, toma fôlego e começa a falar.
-Sabe senhor... Meu pai era um grande fã de cinema. E quando adolescente, me fez assistir junto com ele um filme muito lindo, chamado Sonata de Outono. Eu fiquei tão sufocada assistindo... Pensei quantos sorrisos e anos de leveza de consciência são perdidos porque simplesmente ficamos falando, e falando, e falando, mas nunca dizemos o que realmente importa.
-Mas... Eu já estou esgotado. De tentar e não conseguir. Desculpe pelo drama barato em pleno local de trabalho.
-Tudo bem, senhor. Eu tive todos os motivos para pensar assim. Mas meu agora ex-marido foi honesto comigo, pelo menos. Então... O senhor promete que vai tentar.
O violão começa, a voz mórbida entra.
-Desculpe, mas não. Eu vou perder a oportunidade, sim. E vou alimentar culpa. Mas eu já estou acostumado. Sigo uma religião cristã, baseada em um sistema de pecados, e você sabe, desde criança estou acostumado a sentir culpa. Até pelo que eu não fiz.
Ela, sem reação.
-Porém, não pense que vou me suicidar só por causa disso. Não de imediato, aos poucos. Por falar nisso, a senhorita aceitaria uma bebida depois do trabalho?
-Aceito, sim, senhor.
Sorrio. Ela caminha até a porta, abre e antes de ela sair, eu digo:
-Michelle...
-Sim?
-Antes de você sair, permita-me dizer; é a mulher mais linda com quem eu vou perder a oportunidade.
-Talvez não precise perdê-la...
Ela sorri, e sai andando. Talvez tenha dado meu primeiro passo para a redenção. É como um filme que assisti outro dia, Magnólia. Todos acabam chorando por não buscarem redenção, perdão, enfim, serem conformados com a derrota. Como eu tenho sido até agora, e não sei se continuarei a ser. Não sei se minha alma se livrará desse terno preto, confortável e sufocante. Então vejo que sim, Johnny Cash talvez tenha me dado uma dica. Se ela for minha, andarei na linha.
Friday, June 29, 2007
Perdidos no Ônibus
(Texto escrito por Bernardo e por Luden)
Dei o sinal para o ônibus parar, não faria diferença se não o desse, oito pessoas também deram o sinal e subiram como formigas, brigando para tentar pegar os últimos lugares onde se poderia sentar. Como sempre, esperei para subir por último, sempre fazia isso para talvez um outro ônibus vir e eu poder ir nele, caso estivesse mais vazio. E foi o que aconteceu. Dei o sinal e subi sozinho. Sentei-me no acento ao lado da janela e tentei dormir. Em vão...ônibus, lombadas, buracos, tudo que uma grande metrópole tem e te proíbe de dormir num ônibus.
O sono ainda me dominava e a fumaça da cidade ainda embaçava meus óculos. Não seria dessa vez que eu iria dormir fora de casa, afinal, simplesmente, não consigo. Minha machucada coluna só agüenta uma linha reta para que eu consiga repousar decentemente, ou não. Eu deveria fechar todas as janelas desse maldito ônibus, meus óculos não param de embaçar, que porcaria! Mas aí, todos começaram a transpirar, e tudo ficaria embaçado de novo... Que vida eu levo - tudo está embaçado de forma irremediável...
Então começo a analisar todas as pessoas possíveis, todas parecem tão aéreas, tão absortas em coisas desconhecidas por elas mesmas que ficam com caras de idiotas. Começo a assimilá-las com qualquer banda, ou com qualquer músico. Um senhor negro em pé ao meu lado me lembrava Miles Davis, uma senhora sentada no bando à minha frente tinha tantas rugas que me lembrava Iggy Pop. E ao meu lado, Um homem parecido com Buddy Holly se levantava de cinco em cinco minutos para abrir ou fechar a janela, jurei para mim mesmo que mandaria ele a merda se fizesse aquilo de novo.
Marlon Brando, aonde quer que ele esteja agora, deve estar rindo da minha cara, pois mesmo quando era o Chefão Corleone ou o tarado Paul, ou ainda aquele general psicótico que eu não sei o nome, sempre teve rios de dinheiro para andar de limousine. Eu, aqui, nesse ônibus, só tenho dinheiro para no máximo pegar uns três táxis por semana se não quiser ficar sem dinheiro para pagar minhas contas. E um homem olha fixamente para mim, um pouco mais moço do que eu, com cabelos na altura dos ombros, barba por fazer e um olhar meio decadente, como todos aqueles rockstars com ilusões de grandeza possuem. O seu olhar é tenso, decidido e com certeza ele não guarda boas impressões sobre minha pessoa e minha implicância com janelas.
Acho que ele percebeu que estava me irritando. Até o jeito mesquinho deste homem me irrita: a fragilidade visível, os óculos fundo-de-garrafa, os ombros arqueados, o olhar medroso. Nem ratos de laboratório tem olhares tão medrosos. A inquietação que ele demonstra é algo impressionante, parece que está fugindo da polícia, quem sabe não esteja mesmo, hoje em dia até ratinhos como ele roubam...A camisa que ele usa parece-se com a minha, embora a minha esteja totalmente amassada e com manchas de cerveja. Acho que não gosto mais assim desta camisa...
Tento não olhar para ele. Estalo os dedos, tento fazer isso de forma tranqüila, mas minha paranóia com esse homem não me ajuda no meu teatro. Mordo meu lábio inferior por me sentir na porcaria de um médico ou algo assim. Não que um sujeito de tão bronca aparência tenha alguma graduação na faculdade, mas... Reparo no broche que ele usa. Um broche daquela banda, Ramones. Bom, é uma situação sem retorno pelo que vejo. Mais um dos sujeitos que passam direto pelos discos do Chick Corea quando querem consumir música, economicamente falando... Ainda lembro quando três revistas diferentes rejeitaram minha análise de um disco dele...
Engraçado, tenho quase certeza de que ele ficou olhando alguns segundos pro meu botton e depois deu um suspiro de desdém. Ah se eu tivesse certeza de que isso realmente tivesse acontecido. Não sei bem o porquê, mas esse homem me irrita, a cara de constantemente descontente consigo mesmo, de frustrado, pensando assim ele se parece comigo até. Só que é de outra geração, tem todo aquele desdém que meu pai tinha quando me dava sermão. Aliás, ele lembra muito meu pai. E consequentemente lembra a mim...
Me tornei o personagem principal da manhã de alguém, pelo jeito. Logo eu, que nunca fui santo, herói, vilão, enfim, nenhuma dessas figuras maniqueístas na vida de alguém. Para dizer a verdade, eu sempre fui o figurante, ruim demais para ser um ator coadjuvante. Na escola, ficava no fundo da sala, desenhando os meus colegas e professores. No trabalho, perto do local de saída, colocando uma pilha de papel na frente de livros autodepreciativos. Pelo menos nesses livros existem personagens principais. O grande personagem principal da minha vida, meu antagonista e amigo, são meus óculos. Ajeitei meu amigonista, olhei de novo para o rapaz e esbocei um sorriso mínimo.
Agora o homem resolveu rir. Devo dizer que isso me pegou desprevenido, não consegui pensar no que fazer, ensaiei um sorriso amarelo e o fiz. Impressionado com a situação, dei uma gargalhada, tão profunda e longa que minha barriga começou a doer. Olhei para aquele homem sem mais tentar analisá-lo, não falei nada, só estiquei minha mão.
Ele riu depois do meu sorriso. Continuou sorrindo e esticou a mão. Fiquei indeciso entre olhar para ele e olhar para o chão. Ajeitei os óculos. Estiquei a mão de forma um pouco lenta, ainda que decidida. Batia os pés no chão com pouca força, mais nervosismo do que força. Agarrava o estofado do ônibus com a outra mão, e dessa vez sim, com bastante força.
Consegui segurar o riso, fiquei com medo de que talvez ele pensasse que estava rindo da cara dele. Peguei minha mochila que estava ao meu pé, coloquei ela em cima da minha perna, segurei a alça dela, dei o sinal, e disse: "Minha parada". Desci do ônibus rindo, não sei bem do que, nem por quê. Sei que estava feliz.
Continuei esticando a mão para cima, até agarrar uma barra de ferro e ficar de pé. Nunca mais irei ver aquele sorriso demencial. Ele nunca mais irá reparar na minha compulsão com as janelas de ônibus. Respiro fundo. Daqui a dois pontos é o meu trabalho. Caminho lentamente até a porta de saída do ônibus. Dando uma última ajeitada e uma última conferida em todos que estão no ônibus, a primeira e última vez que verei todos eles. Lembro então de uma charada. O que você faria se você estivesse nadando no mar e encontrasse um crocodilo? Você não faria nada. Não há crocodilos no mar. E muito provavelmente, aquele homem riu do meu momento de vã rebeldia ao desrespeitar essa charada que explica toda a minha existência...
Wednesday, June 27, 2007
O Caixão
Até que eu deixei de egoísmo. Foi de uma hora para outra, mas tal conclusão teve uma ajuda. Uma ajuda musical, eu diria. Foi a música “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel. Os versos me contaram toda a realidade. Tantos falando, tantos ouvindo... Mas sem comunicação nenhuma. Maior coincidência foi quando caiu na prova de inglês do vestibular. E eu aqui concedendo fúteis detalhes da minha nem um pouco útil vida.
Suponho que você esteja mais interessado do que foi descrito nas primeiras frases. Pois estou aqui, em um caixão, totalmente lacrado, forço as mãos contra a tampa, ouço barulho de terra cedendo. Como a obrigação moral e social de alguém que porventura acorda num caixão obriga, finjo desespero, socando a tampa desesperado, me revirando e debatendo com fingido grande nervosismo... Até ficar exausto.
Começo a racionalizar, e aí vocês têm os primeiros parágrafos que abrem esse texto. Coço os braços de nervosismo como de praxe da minha pessoa quando me encontro situações que não sei como sair. Tudo teatro. Toda a conotação e desejo de consumo máximo da minha fobia social enfim se realiza e eu começo a interpretar o homem comum.
A respiração se torna difícil. Já não sei se os olhos estão abertos ou fechados. Meu corpo está totalmente dormente e tudo está escuro. Será noite? Será dia? Em que cemitério estarei enterrado?
Brinquemos de teatro. Ó, pobre de mim, preso aqui, não sei que horas são, quanto tempo se passou, que estação do ano está, algum cachorro mijou na minha lápide? Por que logo eu, por que não você, e não estou conseguindo ser muito convincente na minha tentativa, certo?
É o único jeito de ter algo a dizer. Posso ficar aqui sem beber e comer nada até definhar. Ou sufocar quando o ar estiver rarefeito demais. Infelizmente, não sou Uma Thurman para cavar o caminho de volta. Não tenho nenhum Bill para matar.
Pisco e abro os olhos, estalo e estico os dedos, respiro fundo e já com certa dificuldade. Começam a se materializar na minha visão cenas marcantes da minha vida, e acho que já estou morrendo. Ergo minha mão uns três centímetros até alcançar a tampa e continuar fazendo uma pressão mínima nela. Lembro-me dessa alta identificação com caixões, não querendo apenas estar em um para experimentar a sensação, mas tudo se ligando a caixões, minha cama, meu quarto, minha casa, minha escola, as formas geométricas construídas por mim na aula de matemática. Caixões, uma forma geométrica com um belo sentido para mim, desde que esteja com uma cruz estampada.
Não que eu seja católico, evangélico, ou de qualquer outra religião. Ou de uma religião qualquer. Mas considero divertida toda essa simbologia que mesmo em um mundo totalmente informatizado, continuamos insistindo em usar.
Nunca fui um gótico imaturo cheio de espinhas, daqueles que habitam as grandes cidades. Também nunca gostei de chocar as pessoas. Nunca contei a ninguém essa admiração por caixões. Também não tenho catalepsia. Apenas estou em um caixão.
A realização da minha lucidez de que acabaria aqui. Nem saberia quando, nem como, mas sei que acabaria aqui. Nesse espaço limitado, que posso me debater o quanto quiser que não há escapatória. Apelemos de novo para o sentido conotativo para podermos concluir que levei a vida assim. Tudo fechado, limitado e com um final apertado.
Claro que se eu fosse ativista do Greenpeace, vegetariano ou qualquer coisa assim, estaria feliz por ser menos um a prejudicar o meio ambiente. Mas estaria sendo hipócrita porque não estaria realmente com vontade de permanecer aqui.
Agora estou totalmente despido de hipocrisia e armado da mais profunda sinceridade e essa prisão me dá liberdade. Liberdade de pensamento. Eu, enfim, me libertei. E sinto que em breve, estarei mais em liberdade ainda! Estarei livre desse caixão chamado carne, no qual venho me debatendo há anos, e agora, só agora, descobri que a morte é realmente feito um filme de Quentin Tarantino. Rápida, irônica, um espectador acharia engraçado, e eu sou o caixão esperando para receber um golpe. Pode vir, Beatrix Kiddo.
Monday, June 18, 2007
Blues da Amargura
Até poucas horas atrás, ao invés de toda essa ópera, promovíamos um concerto de rock. Com o rebolado de Elvis, os gemidos de Mick Jagger e o amor de McCartney. Agora nossos corpos despidos já têm uma considerável distância entre si que só tendem a aumentar.
Para expressar a dor dos pensamentos, acho que convém deixar tudo pouco acessível e improvisado, como no bebop. Estaremos eu e ela no restaurante:
-Acho que vou pedir um sorvete...
-Frio que nem você.
-Se é assim... você pretende pedir chocolate amargo?
Minha face abrirá um sorriso sarcástico. O estômago dela irá embrulhar e impropérios serão ditos. Sei que não farei nada, olharei para o prato de comida e alisarei o garfo com a ponta do dedo. Tenho a frieza, mas não tenho o sabor. Ela irá embora em passos furiosos, e não acho que o salto agulha que ela usa aguentará muito tempo.
Acenderei mais um cigarro, uma das únicas coisas que me lembra o que é calor. E mais uma vez aprenderei a lição que todo bom crítico de música sabe: no final, tudo é blues.
Friday, May 11, 2007
Frente Fria
Nossos intestinos processam litros e mais litros ao longo de nossas vidas. E não nos julgam, nem nos odeiam. Mas odiamos os outros, até o intestino. Era isso que eu pensava ao tomar a quarta dose de tequila. Bêbados agora, esses homens que agora se abraçam, sóbrios trocam sopapos e palavras indecorosas.
Continuaria pensando nisso se não tivessem derrubado cerveja em cima de mim. E o mais revoltante, mal esperou que eu começasse a confusão. O meu olhar indignado por molhar a camisa nova já começou um rebuliço. Minha tese falhou em não considerar os bêbados agressivos.
Mas claro, é algo que acontece em uma noite no bar, e que você não deve levar tão a sério assim. Trocamos garrafadas, arranhões, mordidas, unhadas, mas não trocamos socos ou chutes. O álcool eliminou nossa perícia marcial. Nossa grande frustração; nós queríamos lutar.
E já separaram a briga. Eu ouvia um axé ao fundo. Tudo bem, meus ouvidos nunca tiveram o melhor gosto. E lá está o outro, no canto do bar passando gelo no rosto, e aqui estou, abraçado num caça-níquel. Duro e frio, me faz refletir que há um bom tempo estou assim. E que há dois anos não consigo manter uma relação estável, confortável e quente.
Anteontem, a mulher do tempo, no telejornal, avisou que a frente fria vinha se aproximando. Profissão ingrata a dela. Avisar que tudo deixará de ser quente, vivo e convidativo e anunciar a queda das folhas, o maior distanciamento das pessoas que passam a viver dentro de seus grandes casacos e a dureza de apenas respirar sentindo saudade dos momentos mais quentes.
Para quem conhece a dureza e o frio como todos nós aqui, odiadores de intestinos – os próprios e os alheios – a solução não é nenhuma novidade. É uma velharia que nos deixa quentes, prontos para derramar sangue em pleno frio. A quem devemos a alegria da semivivência: proponho então um brinde que poucos propuseram antes, se é que já propuseram: a ti, álcool, por todos os serviços prestados.
Saturday, April 28, 2007
Diálogo pós-morte
- Sim.
- Maria ?
- É ela mesma, quem fala ?
- É o José...
- Ah, sim, tudo bem ? Que que aconteceu ? Tá com a voz estranha...
- Eu estou bem sim, mas...não sei como te falar isso...
- Ora, fale logo! Está me deixando preocupada !
- O Joaquim...teu irmão...faleceu essa madrugada...
- Ah meu Deus...
- Ele morreu dormindo, não sentiu nada. Não se preocupe
- ...
- De manhã quando acordamos, não vimos ele lendo o jornal. Estranhamos e fomos ao quarto ver o que havia acontecido. Ele estava deitado, meio encolhido. Parecia mais calmo que nunca.
- Meu Deus...Não nos falávamos há anos ! Vocês já sabem como ou porquê aconteceu ?
- Disseram que o coração parou. Só isso.
- Meu Deus...
- Ele viveu bem. Não passou sequer uma semana doente. Não sofreu. Morreu dormindo. Eu mataria para morrer dormindo e sem sofrer como ele...
- Sim, ao menos isso...morreu dum jeito bom, se é que isso existe.
- O velório será naquele cemitério que o vô de vocês tá enterrado. Nunca lembro o nome daquele lugar.
- Ah, sei onde é.
- Vai ser amanhã às nove da noite.
- Às nove da noite ?
- Sim...
- Não tem como ser mais cedo ?
- Não, aparentemente muita gente morreu e os horários estão reservados.
- Até quando você morre tem que ficar na fila ! Esse mundo...
- É...
- Mas olhe, aquela lanchonete de lá fica aberta até essas horas ?
- Acho que sim.
- Que bom, não agüento essas coisas sem tomar um cafézinho. Sabe como é...
- Sei sim. Então você vai ?
- Acho que sim, tenho que ver se arranjo alguém pra gravar a novela para mim, senão não sei como farei...
- Ah, entendo...
- Até amanhã, filho. Você serviu meu irmão muito bem todos esses anos. Deixou de ser caseiro e virou um irmão. Obrigado.
- Magina, não fiz mais que minha obrigação. Até amanhã
(Desligam os telefones)
- Maldita velha hipócrita...
