O Caixão
Em um caixão. E, finalmente, no sentido denotativo. Carreguei a vida inteira a pífia vontade de isolamento. Aquela sensação de que, mesmo gigantesco, o mundo não tem coisas realmente cativantes para se ver nem pessoas realmente dignas para se falar. O velho sentimento de mártir de que as pessoas não lhe dão ouvidos.
Até que eu deixei de egoísmo. Foi de uma hora para outra, mas tal conclusão teve uma ajuda. Uma ajuda musical, eu diria. Foi a música “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel. Os versos me contaram toda a realidade. Tantos falando, tantos ouvindo... Mas sem comunicação nenhuma. Maior coincidência foi quando caiu na prova de inglês do vestibular. E eu aqui concedendo fúteis detalhes da minha nem um pouco útil vida.
Suponho que você esteja mais interessado do que foi descrito nas primeiras frases. Pois estou aqui, em um caixão, totalmente lacrado, forço as mãos contra a tampa, ouço barulho de terra cedendo. Como a obrigação moral e social de alguém que porventura acorda num caixão obriga, finjo desespero, socando a tampa desesperado, me revirando e debatendo com fingido grande nervosismo... Até ficar exausto.
Começo a racionalizar, e aí vocês têm os primeiros parágrafos que abrem esse texto. Coço os braços de nervosismo como de praxe da minha pessoa quando me encontro situações que não sei como sair. Tudo teatro. Toda a conotação e desejo de consumo máximo da minha fobia social enfim se realiza e eu começo a interpretar o homem comum.
A respiração se torna difícil. Já não sei se os olhos estão abertos ou fechados. Meu corpo está totalmente dormente e tudo está escuro. Será noite? Será dia? Em que cemitério estarei enterrado?
Brinquemos de teatro. Ó, pobre de mim, preso aqui, não sei que horas são, quanto tempo se passou, que estação do ano está, algum cachorro mijou na minha lápide? Por que logo eu, por que não você, e não estou conseguindo ser muito convincente na minha tentativa, certo?
É o único jeito de ter algo a dizer. Posso ficar aqui sem beber e comer nada até definhar. Ou sufocar quando o ar estiver rarefeito demais. Infelizmente, não sou Uma Thurman para cavar o caminho de volta. Não tenho nenhum Bill para matar.
Pisco e abro os olhos, estalo e estico os dedos, respiro fundo e já com certa dificuldade. Começam a se materializar na minha visão cenas marcantes da minha vida, e acho que já estou morrendo. Ergo minha mão uns três centímetros até alcançar a tampa e continuar fazendo uma pressão mínima nela. Lembro-me dessa alta identificação com caixões, não querendo apenas estar em um para experimentar a sensação, mas tudo se ligando a caixões, minha cama, meu quarto, minha casa, minha escola, as formas geométricas construídas por mim na aula de matemática. Caixões, uma forma geométrica com um belo sentido para mim, desde que esteja com uma cruz estampada.
Não que eu seja católico, evangélico, ou de qualquer outra religião. Ou de uma religião qualquer. Mas considero divertida toda essa simbologia que mesmo em um mundo totalmente informatizado, continuamos insistindo em usar.
Nunca fui um gótico imaturo cheio de espinhas, daqueles que habitam as grandes cidades. Também nunca gostei de chocar as pessoas. Nunca contei a ninguém essa admiração por caixões. Também não tenho catalepsia. Apenas estou em um caixão.
A realização da minha lucidez de que acabaria aqui. Nem saberia quando, nem como, mas sei que acabaria aqui. Nesse espaço limitado, que posso me debater o quanto quiser que não há escapatória. Apelemos de novo para o sentido conotativo para podermos concluir que levei a vida assim. Tudo fechado, limitado e com um final apertado.
Claro que se eu fosse ativista do Greenpeace, vegetariano ou qualquer coisa assim, estaria feliz por ser menos um a prejudicar o meio ambiente. Mas estaria sendo hipócrita porque não estaria realmente com vontade de permanecer aqui.
Agora estou totalmente despido de hipocrisia e armado da mais profunda sinceridade e essa prisão me dá liberdade. Liberdade de pensamento. Eu, enfim, me libertei. E sinto que em breve, estarei mais em liberdade ainda! Estarei livre desse caixão chamado carne, no qual venho me debatendo há anos, e agora, só agora, descobri que a morte é realmente feito um filme de Quentin Tarantino. Rápida, irônica, um espectador acharia engraçado, e eu sou o caixão esperando para receber um golpe. Pode vir, Beatrix Kiddo.
Até que eu deixei de egoísmo. Foi de uma hora para outra, mas tal conclusão teve uma ajuda. Uma ajuda musical, eu diria. Foi a música “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel. Os versos me contaram toda a realidade. Tantos falando, tantos ouvindo... Mas sem comunicação nenhuma. Maior coincidência foi quando caiu na prova de inglês do vestibular. E eu aqui concedendo fúteis detalhes da minha nem um pouco útil vida.
Suponho que você esteja mais interessado do que foi descrito nas primeiras frases. Pois estou aqui, em um caixão, totalmente lacrado, forço as mãos contra a tampa, ouço barulho de terra cedendo. Como a obrigação moral e social de alguém que porventura acorda num caixão obriga, finjo desespero, socando a tampa desesperado, me revirando e debatendo com fingido grande nervosismo... Até ficar exausto.
Começo a racionalizar, e aí vocês têm os primeiros parágrafos que abrem esse texto. Coço os braços de nervosismo como de praxe da minha pessoa quando me encontro situações que não sei como sair. Tudo teatro. Toda a conotação e desejo de consumo máximo da minha fobia social enfim se realiza e eu começo a interpretar o homem comum.
A respiração se torna difícil. Já não sei se os olhos estão abertos ou fechados. Meu corpo está totalmente dormente e tudo está escuro. Será noite? Será dia? Em que cemitério estarei enterrado?
Brinquemos de teatro. Ó, pobre de mim, preso aqui, não sei que horas são, quanto tempo se passou, que estação do ano está, algum cachorro mijou na minha lápide? Por que logo eu, por que não você, e não estou conseguindo ser muito convincente na minha tentativa, certo?
É o único jeito de ter algo a dizer. Posso ficar aqui sem beber e comer nada até definhar. Ou sufocar quando o ar estiver rarefeito demais. Infelizmente, não sou Uma Thurman para cavar o caminho de volta. Não tenho nenhum Bill para matar.
Pisco e abro os olhos, estalo e estico os dedos, respiro fundo e já com certa dificuldade. Começam a se materializar na minha visão cenas marcantes da minha vida, e acho que já estou morrendo. Ergo minha mão uns três centímetros até alcançar a tampa e continuar fazendo uma pressão mínima nela. Lembro-me dessa alta identificação com caixões, não querendo apenas estar em um para experimentar a sensação, mas tudo se ligando a caixões, minha cama, meu quarto, minha casa, minha escola, as formas geométricas construídas por mim na aula de matemática. Caixões, uma forma geométrica com um belo sentido para mim, desde que esteja com uma cruz estampada.
Não que eu seja católico, evangélico, ou de qualquer outra religião. Ou de uma religião qualquer. Mas considero divertida toda essa simbologia que mesmo em um mundo totalmente informatizado, continuamos insistindo em usar.
Nunca fui um gótico imaturo cheio de espinhas, daqueles que habitam as grandes cidades. Também nunca gostei de chocar as pessoas. Nunca contei a ninguém essa admiração por caixões. Também não tenho catalepsia. Apenas estou em um caixão.
A realização da minha lucidez de que acabaria aqui. Nem saberia quando, nem como, mas sei que acabaria aqui. Nesse espaço limitado, que posso me debater o quanto quiser que não há escapatória. Apelemos de novo para o sentido conotativo para podermos concluir que levei a vida assim. Tudo fechado, limitado e com um final apertado.
Claro que se eu fosse ativista do Greenpeace, vegetariano ou qualquer coisa assim, estaria feliz por ser menos um a prejudicar o meio ambiente. Mas estaria sendo hipócrita porque não estaria realmente com vontade de permanecer aqui.
Agora estou totalmente despido de hipocrisia e armado da mais profunda sinceridade e essa prisão me dá liberdade. Liberdade de pensamento. Eu, enfim, me libertei. E sinto que em breve, estarei mais em liberdade ainda! Estarei livre desse caixão chamado carne, no qual venho me debatendo há anos, e agora, só agora, descobri que a morte é realmente feito um filme de Quentin Tarantino. Rápida, irônica, um espectador acharia engraçado, e eu sou o caixão esperando para receber um golpe. Pode vir, Beatrix Kiddo.

3 Comments:
Metaforicamente muito bom \o
juro que num dia menos cinza e sem rammstein eu comento esse post.
legenda do programa da sônia abrão:
"matéria assustadora: gótico carioca rouba caixão em cemitério"
Post a Comment
<< Home