Blues da Amargura
O corpo lívido da bela dama se encolhia fetalmente embaixo dos lençóis. E eu... Ainda não durmo. Ao invés disso, fumo. Queria poder ouvir alguma música, mas a casa não é minha. Resta-me então a cacofonia urbana. Os sons graves de motores, os agudos das buzinas, e os ambulantes são todos sopranos e barítonos.
Até poucas horas atrás, ao invés de toda essa ópera, promovíamos um concerto de rock. Com o rebolado de Elvis, os gemidos de Mick Jagger e o amor de McCartney. Agora nossos corpos despidos já têm uma considerável distância entre si que só tendem a aumentar.
Para expressar a dor dos pensamentos, acho que convém deixar tudo pouco acessível e improvisado, como no bebop. Estaremos eu e ela no restaurante:
-Acho que vou pedir um sorvete...
-Frio que nem você.
-Se é assim... você pretende pedir chocolate amargo?
Minha face abrirá um sorriso sarcástico. O estômago dela irá embrulhar e impropérios serão ditos. Sei que não farei nada, olharei para o prato de comida e alisarei o garfo com a ponta do dedo. Tenho a frieza, mas não tenho o sabor. Ela irá embora em passos furiosos, e não acho que o salto agulha que ela usa aguentará muito tempo.
Acenderei mais um cigarro, uma das únicas coisas que me lembra o que é calor. E mais uma vez aprenderei a lição que todo bom crítico de música sabe: no final, tudo é blues.
Até poucas horas atrás, ao invés de toda essa ópera, promovíamos um concerto de rock. Com o rebolado de Elvis, os gemidos de Mick Jagger e o amor de McCartney. Agora nossos corpos despidos já têm uma considerável distância entre si que só tendem a aumentar.
Para expressar a dor dos pensamentos, acho que convém deixar tudo pouco acessível e improvisado, como no bebop. Estaremos eu e ela no restaurante:
-Acho que vou pedir um sorvete...
-Frio que nem você.
-Se é assim... você pretende pedir chocolate amargo?
Minha face abrirá um sorriso sarcástico. O estômago dela irá embrulhar e impropérios serão ditos. Sei que não farei nada, olharei para o prato de comida e alisarei o garfo com a ponta do dedo. Tenho a frieza, mas não tenho o sabor. Ela irá embora em passos furiosos, e não acho que o salto agulha que ela usa aguentará muito tempo.
Acenderei mais um cigarro, uma das únicas coisas que me lembra o que é calor. E mais uma vez aprenderei a lição que todo bom crítico de música sabe: no final, tudo é blues.

4 Comments:
Muito bom, bêr.
Muito mesmo.
Até me deu vontade de escreverm seu puto.
Essa seria a cena de um filme meu.
Na verdade, me é uma cena bem familiar. Acho que ja vivi um momento como esse, nao sei. É...vivi.
MUITO FODA, BÊR, SEU MALDITO. D:
Adoro ler as coisas que tu escreve, heim.
você escreve muito bem, bêrnardo. agora, quanta frieza. XDD
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