Homem de Preto
Johnny Cash não era o verdadeiro homem de preto. Apesar das roupas sempre pretas, apesar da voz mórbida, apesar de todo o mito formado em cima do homem, ele não era. Toda a escuridão dele encontrou redenção quando June Carter apareceu. Tudo ficou tão claro para ele, que ele próprio afirmou que começou a andar na linha, e que tudo estava abrasivo e quente, afinal, ele caíra no anel de fogo chamado amor.
E eu aqui, me pergunto onde está a linha e qual é a temperatura desse anel. E Cash, decompondo, não pode me ajudar. Minhas camisas sociais são listradas e minha voz não é muito diferente das que você ouve todo dia.
-Bom dia, senhor.
-Oh, bom dia, querida.
Estou no trabalho, enfim, digitando sem parar. Malditos novos registros. Como eu os odeio... E que afirmação tão superficial. Abro um botão da camisa para não transpirar tanto. Maldito verão. Hora de inserir as mesmas afirmações de sempre.
-Deseja alguma coisa, senhor?
-Muitas, na verdade...
-Eu quis dizer, para beber.
-Ah, um chá, por favor.
Por ela. De joelhos por ela todos esses anos. Ela sempre tão cordial, gentil e atenciosa. Tudo o que um homem de preto quer e não consegue. Seja por insegurança, seja por egocentria, quem sabe, pelos dois. Mas ela é casada. Muita bem casada, segundo ela.
Eu... Quatro divórcios. Três filhos para pensão. Mil lágrimas quando tudo deu errado. Duvido que alguma tenha vindo de qualquer uma delas. Todas minhas, com raiva da minha própria pessoa por ser conformado demais mesmo com seus amores.
Já senti a vontade de por um fim nisso tudo. Sair correndo pela rua gritando, evocando meus instintos mais animalescos ao ver qualquer coisa se movendo. Mas antes de qualquer coisa, o homem de preto é um conformista. Ele prefere alimentar culpa a buscar redenção. Ele prefere chorar no fim do casamento a chorar no casório. Deveria parar de escrever sobre mim na terceira pessoa.
Olho pela janela. Um casal se beijando. De um bar alguém ouve um novo hit romântico do verão. Coço o queixo repetidamente e mergulho agora na dúvida de por que uns conseguirem, outros não. Por que uns se apegam tanto, e outros, tão pouco. Desapegado, ou corajoso. É uma das duas coisas que eu queria ser. Encontro-me no estado de conformista e apegado. E me deprime nunca poder tê-la entre os meus braços. De que não irei chorar nosso divórcio, porque nem casar nós iremos.
-Obrigado pelo chá.
-De nada, senhor.
-Então, tem novidades?
-Sim, sim, o gráfico está sendo preparado e...
-Não, eu quis dizer novidades sobre você.
-Sobre mim?
-Sim, sobre você. Você não me perguntou, mas este é um exemplo; ontem comprei um disco do Paulinho da Viola.
-Pois é, senhor, sabe... Eu acabei de me divorciar.
-Mas outro dia, você não disse...
-...Que era bem casada. Sim, mas não tanto, pelo jeito.
Mordo a tampa na caneta.
-Mas foi tão repentino... Vocês não pareciam à beira de um divórcio.
-É... Talvez não. Mas a opinião alheia não correspondia à realidade.
-E que realidade era essa?
Silêncio momentâneo.
-Ah... Eu me sinto tão mal em ficar falando, e causar desconforto no senhor.
-Eu estou interessado em saber.
-Tem certeza?
-Se não quisesse, não perguntava.
-Ele me disse... Que conheceu outra.
-Oh meu Deus... Isso é tão irracional. E racional também.
-Como assim?
-Eu digo, ele tomou a atitude mais racional possível. Não te traiu, não foi movido pelo tesão do momento, acho eu.
-E o irracional?
-O acaso. Você está feliz, com uma vida estruturada, filhos, casa própria... Aí um dos dois conhece alguém e tudo desaba feito um castelo de cartas. – Fiz uma onomatopéia apropriada.
-É... Verdade. – Ela abaixa a cabeça.
-Oh, desculpe... Não queria entristecê-la com minhas divagações. Mas desejo melhor sorte na próxima vez.
-O senhor tem cara de quem já teve essa sorte...
-Não a tive quatro vezes. Não estou a tendo no presente momento.
-E por que não?
-Porque... Não consigo falar.
-Ora, senhor... – ela esboçou um sorriso, angelical – E se essa pessoa gostar de você também?
Encosto e retiro repetidamente o joelho numa das pernas da mesa.
-Eu... Prefiro que seja assim.
-Ora, vamos... Aprenda a confiar nas pessoas...
-Não consigo...
-Por quê?
-Acho que sei que, pela quinta vez, tudo estará caminhando mais uma vez ao fracasso.
-Por que não tentar de novo, senhor?
Dei um soco na mesa. Ela ficou assustada.
-Por que não. Eu já não aguento mais chorar – Soco, soco, soco.- toda noite, porque não tenho alguém, e quando tenho, sei que irei perder. Porque esse é o maldito destino. – Derrubo algumas lágrimas e abaixo a cabeça. Ela põe as mãos sobre meus ombros, toma fôlego e começa a falar.
-Sabe senhor... Meu pai era um grande fã de cinema. E quando adolescente, me fez assistir junto com ele um filme muito lindo, chamado Sonata de Outono. Eu fiquei tão sufocada assistindo... Pensei quantos sorrisos e anos de leveza de consciência são perdidos porque simplesmente ficamos falando, e falando, e falando, mas nunca dizemos o que realmente importa.
-Mas... Eu já estou esgotado. De tentar e não conseguir. Desculpe pelo drama barato em pleno local de trabalho.
-Tudo bem, senhor. Eu tive todos os motivos para pensar assim. Mas meu agora ex-marido foi honesto comigo, pelo menos. Então... O senhor promete que vai tentar.
O violão começa, a voz mórbida entra.
-Desculpe, mas não. Eu vou perder a oportunidade, sim. E vou alimentar culpa. Mas eu já estou acostumado. Sigo uma religião cristã, baseada em um sistema de pecados, e você sabe, desde criança estou acostumado a sentir culpa. Até pelo que eu não fiz.
Ela, sem reação.
-Porém, não pense que vou me suicidar só por causa disso. Não de imediato, aos poucos. Por falar nisso, a senhorita aceitaria uma bebida depois do trabalho?
-Aceito, sim, senhor.
Sorrio. Ela caminha até a porta, abre e antes de ela sair, eu digo:
-Michelle...
-Sim?
-Antes de você sair, permita-me dizer; é a mulher mais linda com quem eu vou perder a oportunidade.
-Talvez não precise perdê-la...
Ela sorri, e sai andando. Talvez tenha dado meu primeiro passo para a redenção. É como um filme que assisti outro dia, Magnólia. Todos acabam chorando por não buscarem redenção, perdão, enfim, serem conformados com a derrota. Como eu tenho sido até agora, e não sei se continuarei a ser. Não sei se minha alma se livrará desse terno preto, confortável e sufocante. Então vejo que sim, Johnny Cash talvez tenha me dado uma dica. Se ela for minha, andarei na linha.
E eu aqui, me pergunto onde está a linha e qual é a temperatura desse anel. E Cash, decompondo, não pode me ajudar. Minhas camisas sociais são listradas e minha voz não é muito diferente das que você ouve todo dia.
-Bom dia, senhor.
-Oh, bom dia, querida.
Estou no trabalho, enfim, digitando sem parar. Malditos novos registros. Como eu os odeio... E que afirmação tão superficial. Abro um botão da camisa para não transpirar tanto. Maldito verão. Hora de inserir as mesmas afirmações de sempre.
-Deseja alguma coisa, senhor?
-Muitas, na verdade...
-Eu quis dizer, para beber.
-Ah, um chá, por favor.
Por ela. De joelhos por ela todos esses anos. Ela sempre tão cordial, gentil e atenciosa. Tudo o que um homem de preto quer e não consegue. Seja por insegurança, seja por egocentria, quem sabe, pelos dois. Mas ela é casada. Muita bem casada, segundo ela.
Eu... Quatro divórcios. Três filhos para pensão. Mil lágrimas quando tudo deu errado. Duvido que alguma tenha vindo de qualquer uma delas. Todas minhas, com raiva da minha própria pessoa por ser conformado demais mesmo com seus amores.
Já senti a vontade de por um fim nisso tudo. Sair correndo pela rua gritando, evocando meus instintos mais animalescos ao ver qualquer coisa se movendo. Mas antes de qualquer coisa, o homem de preto é um conformista. Ele prefere alimentar culpa a buscar redenção. Ele prefere chorar no fim do casamento a chorar no casório. Deveria parar de escrever sobre mim na terceira pessoa.
Olho pela janela. Um casal se beijando. De um bar alguém ouve um novo hit romântico do verão. Coço o queixo repetidamente e mergulho agora na dúvida de por que uns conseguirem, outros não. Por que uns se apegam tanto, e outros, tão pouco. Desapegado, ou corajoso. É uma das duas coisas que eu queria ser. Encontro-me no estado de conformista e apegado. E me deprime nunca poder tê-la entre os meus braços. De que não irei chorar nosso divórcio, porque nem casar nós iremos.
-Obrigado pelo chá.
-De nada, senhor.
-Então, tem novidades?
-Sim, sim, o gráfico está sendo preparado e...
-Não, eu quis dizer novidades sobre você.
-Sobre mim?
-Sim, sobre você. Você não me perguntou, mas este é um exemplo; ontem comprei um disco do Paulinho da Viola.
-Pois é, senhor, sabe... Eu acabei de me divorciar.
-Mas outro dia, você não disse...
-...Que era bem casada. Sim, mas não tanto, pelo jeito.
Mordo a tampa na caneta.
-Mas foi tão repentino... Vocês não pareciam à beira de um divórcio.
-É... Talvez não. Mas a opinião alheia não correspondia à realidade.
-E que realidade era essa?
Silêncio momentâneo.
-Ah... Eu me sinto tão mal em ficar falando, e causar desconforto no senhor.
-Eu estou interessado em saber.
-Tem certeza?
-Se não quisesse, não perguntava.
-Ele me disse... Que conheceu outra.
-Oh meu Deus... Isso é tão irracional. E racional também.
-Como assim?
-Eu digo, ele tomou a atitude mais racional possível. Não te traiu, não foi movido pelo tesão do momento, acho eu.
-E o irracional?
-O acaso. Você está feliz, com uma vida estruturada, filhos, casa própria... Aí um dos dois conhece alguém e tudo desaba feito um castelo de cartas. – Fiz uma onomatopéia apropriada.
-É... Verdade. – Ela abaixa a cabeça.
-Oh, desculpe... Não queria entristecê-la com minhas divagações. Mas desejo melhor sorte na próxima vez.
-O senhor tem cara de quem já teve essa sorte...
-Não a tive quatro vezes. Não estou a tendo no presente momento.
-E por que não?
-Porque... Não consigo falar.
-Ora, senhor... – ela esboçou um sorriso, angelical – E se essa pessoa gostar de você também?
Encosto e retiro repetidamente o joelho numa das pernas da mesa.
-Eu... Prefiro que seja assim.
-Ora, vamos... Aprenda a confiar nas pessoas...
-Não consigo...
-Por quê?
-Acho que sei que, pela quinta vez, tudo estará caminhando mais uma vez ao fracasso.
-Por que não tentar de novo, senhor?
Dei um soco na mesa. Ela ficou assustada.
-Por que não. Eu já não aguento mais chorar – Soco, soco, soco.- toda noite, porque não tenho alguém, e quando tenho, sei que irei perder. Porque esse é o maldito destino. – Derrubo algumas lágrimas e abaixo a cabeça. Ela põe as mãos sobre meus ombros, toma fôlego e começa a falar.
-Sabe senhor... Meu pai era um grande fã de cinema. E quando adolescente, me fez assistir junto com ele um filme muito lindo, chamado Sonata de Outono. Eu fiquei tão sufocada assistindo... Pensei quantos sorrisos e anos de leveza de consciência são perdidos porque simplesmente ficamos falando, e falando, e falando, mas nunca dizemos o que realmente importa.
-Mas... Eu já estou esgotado. De tentar e não conseguir. Desculpe pelo drama barato em pleno local de trabalho.
-Tudo bem, senhor. Eu tive todos os motivos para pensar assim. Mas meu agora ex-marido foi honesto comigo, pelo menos. Então... O senhor promete que vai tentar.
O violão começa, a voz mórbida entra.
-Desculpe, mas não. Eu vou perder a oportunidade, sim. E vou alimentar culpa. Mas eu já estou acostumado. Sigo uma religião cristã, baseada em um sistema de pecados, e você sabe, desde criança estou acostumado a sentir culpa. Até pelo que eu não fiz.
Ela, sem reação.
-Porém, não pense que vou me suicidar só por causa disso. Não de imediato, aos poucos. Por falar nisso, a senhorita aceitaria uma bebida depois do trabalho?
-Aceito, sim, senhor.
Sorrio. Ela caminha até a porta, abre e antes de ela sair, eu digo:
-Michelle...
-Sim?
-Antes de você sair, permita-me dizer; é a mulher mais linda com quem eu vou perder a oportunidade.
-Talvez não precise perdê-la...
Ela sorri, e sai andando. Talvez tenha dado meu primeiro passo para a redenção. É como um filme que assisti outro dia, Magnólia. Todos acabam chorando por não buscarem redenção, perdão, enfim, serem conformados com a derrota. Como eu tenho sido até agora, e não sei se continuarei a ser. Não sei se minha alma se livrará desse terno preto, confortável e sufocante. Então vejo que sim, Johnny Cash talvez tenha me dado uma dica. Se ela for minha, andarei na linha.

2 Comments:
Às vezes a ligação música-literatura dá certo, desde que seja feita em curtos intervalos de tempo. Não, não é regra geral.
Seu texto está bom, sim. Parabéns.
mas nem sempre um homem de preto é um homem de ouro =/
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