Friday, June 29, 2007

Perdidos no Ônibus

(Texto escrito por Bernardo e por Luden)


Dei o sinal para o ônibus parar, não faria diferença se não o desse, oito pessoas também deram o sinal e subiram como formigas, brigando para tentar pegar os últimos lugares onde se poderia sentar. Como sempre, esperei para subir por último, sempre fazia isso para talvez um outro ônibus vir e eu poder ir nele, caso estivesse mais vazio. E foi o que aconteceu. Dei o sinal e subi sozinho. Sentei-me no acento ao lado da janela e tentei dormir. Em vão...ônibus, lombadas, buracos, tudo que uma grande metrópole tem e te proíbe de dormir num ônibus.

O sono ainda me dominava e a fumaça da cidade ainda embaçava meus óculos. Não seria dessa vez que eu iria dormir fora de casa, afinal, simplesmente, não consigo. Minha machucada coluna só agüenta uma linha reta para que eu consiga repousar decentemente, ou não. Eu deveria fechar todas as janelas desse maldito ônibus, meus óculos não param de embaçar, que porcaria! Mas aí, todos começaram a transpirar, e tudo ficaria embaçado de novo... Que vida eu levo - tudo está embaçado de forma irremediável...

Então começo a analisar todas as pessoas possíveis, todas parecem tão aéreas, tão absortas em coisas desconhecidas por elas mesmas que ficam com caras de idiotas. Começo a assimilá-las com qualquer banda, ou com qualquer músico. Um senhor negro em pé ao meu lado me lembrava Miles Davis, uma senhora sentada no bando à minha frente tinha tantas rugas que me lembrava Iggy Pop. E ao meu lado, Um homem parecido com Buddy Holly se levantava de cinco em cinco minutos para abrir ou fechar a janela, jurei para mim mesmo que mandaria ele a merda se fizesse aquilo de novo.

Marlon Brando, aonde quer que ele esteja agora, deve estar rindo da minha cara, pois mesmo quando era o Chefão Corleone ou o tarado Paul, ou ainda aquele general psicótico que eu não sei o nome, sempre teve rios de dinheiro para andar de limousine. Eu, aqui, nesse ônibus, só tenho dinheiro para no máximo pegar uns três táxis por semana se não quiser ficar sem dinheiro para pagar minhas contas. E um homem olha fixamente para mim, um pouco mais moço do que eu, com cabelos na altura dos ombros, barba por fazer e um olhar meio decadente, como todos aqueles rockstars com ilusões de grandeza possuem. O seu olhar é tenso, decidido e com certeza ele não guarda boas impressões sobre minha pessoa e minha implicância com janelas.

Acho que ele percebeu que estava me irritando. Até o jeito mesquinho deste homem me irrita: a fragilidade visível, os óculos fundo-de-garrafa, os ombros arqueados, o olhar medroso. Nem ratos de laboratório tem olhares tão medrosos. A inquietação que ele demonstra é algo impressionante, parece que está fugindo da polícia, quem sabe não esteja mesmo, hoje em dia até ratinhos como ele roubam...A camisa que ele usa parece-se com a minha, embora a minha esteja totalmente amassada e com manchas de cerveja. Acho que não gosto mais assim desta camisa...

Tento não olhar para ele. Estalo os dedos, tento fazer isso de forma tranqüila, mas minha paranóia com esse homem não me ajuda no meu teatro. Mordo meu lábio inferior por me sentir na porcaria de um médico ou algo assim. Não que um sujeito de tão bronca aparência tenha alguma graduação na faculdade, mas... Reparo no broche que ele usa. Um broche daquela banda, Ramones. Bom, é uma situação sem retorno pelo que vejo. Mais um dos sujeitos que passam direto pelos discos do Chick Corea quando querem consumir música, economicamente falando... Ainda lembro quando três revistas diferentes rejeitaram minha análise de um disco dele...

Engraçado, tenho quase certeza de que ele ficou olhando alguns segundos pro meu botton e depois deu um suspiro de desdém. Ah se eu tivesse certeza de que isso realmente tivesse acontecido. Não sei bem o porquê, mas esse homem me irrita, a cara de constantemente descontente consigo mesmo, de frustrado, pensando assim ele se parece comigo até. Só que é de outra geração, tem todo aquele desdém que meu pai tinha quando me dava sermão. Aliás, ele lembra muito meu pai. E consequentemente lembra a mim...

Me tornei o personagem principal da manhã de alguém, pelo jeito. Logo eu, que nunca fui santo, herói, vilão, enfim, nenhuma dessas figuras maniqueístas na vida de alguém. Para dizer a verdade, eu sempre fui o figurante, ruim demais para ser um ator coadjuvante. Na escola, ficava no fundo da sala, desenhando os meus colegas e professores. No trabalho, perto do local de saída, colocando uma pilha de papel na frente de livros autodepreciativos. Pelo menos nesses livros existem personagens principais. O grande personagem principal da minha vida, meu antagonista e amigo, são meus óculos. Ajeitei meu amigonista, olhei de novo para o rapaz e esbocei um sorriso mínimo.

Agora o homem resolveu rir. Devo dizer que isso me pegou desprevenido, não consegui pensar no que fazer, ensaiei um sorriso amarelo e o fiz. Impressionado com a situação, dei uma gargalhada, tão profunda e longa que minha barriga começou a doer. Olhei para aquele homem sem mais tentar analisá-lo, não falei nada, só estiquei minha mão.

Ele riu depois do meu sorriso. Continuou sorrindo e esticou a mão. Fiquei indeciso entre olhar para ele e olhar para o chão. Ajeitei os óculos. Estiquei a mão de forma um pouco lenta, ainda que decidida. Batia os pés no chão com pouca força, mais nervosismo do que força. Agarrava o estofado do ônibus com a outra mão, e dessa vez sim, com bastante força.

Consegui segurar o riso, fiquei com medo de que talvez ele pensasse que estava rindo da cara dele. Peguei minha mochila que estava ao meu pé, coloquei ela em cima da minha perna, segurei a alça dela, dei o sinal, e disse: "Minha parada". Desci do ônibus rindo, não sei bem do que, nem por quê. Sei que estava feliz.

Continuei esticando a mão para cima, até agarrar uma barra de ferro e ficar de pé. Nunca mais irei ver aquele sorriso demencial. Ele nunca mais irá reparar na minha compulsão com as janelas de ônibus. Respiro fundo. Daqui a dois pontos é o meu trabalho. Caminho lentamente até a porta de saída do ônibus. Dando uma última ajeitada e uma última conferida em todos que estão no ônibus, a primeira e última vez que verei todos eles. Lembro então de uma charada. O que você faria se você estivesse nadando no mar e encontrasse um crocodilo? Você não faria nada. Não há crocodilos no mar. E muito provavelmente, aquele homem riu do meu momento de vã rebeldia ao desrespeitar essa charada que explica toda a minha existência...

Wednesday, June 27, 2007

O Caixão

Em um caixão. E, finalmente, no sentido denotativo. Carreguei a vida inteira a pífia vontade de isolamento. Aquela sensação de que, mesmo gigantesco, o mundo não tem coisas realmente cativantes para se ver nem pessoas realmente dignas para se falar. O velho sentimento de mártir de que as pessoas não lhe dão ouvidos.

Até que eu deixei de egoísmo. Foi de uma hora para outra, mas tal conclusão teve uma ajuda. Uma ajuda musical, eu diria. Foi a música “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel. Os versos me contaram toda a realidade. Tantos falando, tantos ouvindo... Mas sem comunicação nenhuma. Maior coincidência foi quando caiu na prova de inglês do vestibular. E eu aqui concedendo fúteis detalhes da minha nem um pouco útil vida.

Suponho que você esteja mais interessado do que foi descrito nas primeiras frases. Pois estou aqui, em um caixão, totalmente lacrado, forço as mãos contra a tampa, ouço barulho de terra cedendo. Como a obrigação moral e social de alguém que porventura acorda num caixão obriga, finjo desespero, socando a tampa desesperado, me revirando e debatendo com fingido grande nervosismo... Até ficar exausto.

Começo a racionalizar, e aí vocês têm os primeiros parágrafos que abrem esse texto. Coço os braços de nervosismo como de praxe da minha pessoa quando me encontro situações que não sei como sair. Tudo teatro. Toda a conotação e desejo de consumo máximo da minha fobia social enfim se realiza e eu começo a interpretar o homem comum.

A respiração se torna difícil. Já não sei se os olhos estão abertos ou fechados. Meu corpo está totalmente dormente e tudo está escuro. Será noite? Será dia? Em que cemitério estarei enterrado?

Brinquemos de teatro. Ó, pobre de mim, preso aqui, não sei que horas são, quanto tempo se passou, que estação do ano está, algum cachorro mijou na minha lápide? Por que logo eu, por que não você, e não estou conseguindo ser muito convincente na minha tentativa, certo?

É o único jeito de ter algo a dizer. Posso ficar aqui sem beber e comer nada até definhar. Ou sufocar quando o ar estiver rarefeito demais. Infelizmente, não sou Uma Thurman para cavar o caminho de volta. Não tenho nenhum Bill para matar.

Pisco e abro os olhos, estalo e estico os dedos, respiro fundo e já com certa dificuldade. Começam a se materializar na minha visão cenas marcantes da minha vida, e acho que já estou morrendo. Ergo minha mão uns três centímetros até alcançar a tampa e continuar fazendo uma pressão mínima nela. Lembro-me dessa alta identificação com caixões, não querendo apenas estar em um para experimentar a sensação, mas tudo se ligando a caixões, minha cama, meu quarto, minha casa, minha escola, as formas geométricas construídas por mim na aula de matemática. Caixões, uma forma geométrica com um belo sentido para mim, desde que esteja com uma cruz estampada.

Não que eu seja católico, evangélico, ou de qualquer outra religião. Ou de uma religião qualquer. Mas considero divertida toda essa simbologia que mesmo em um mundo totalmente informatizado, continuamos insistindo em usar.

Nunca fui um gótico imaturo cheio de espinhas, daqueles que habitam as grandes cidades. Também nunca gostei de chocar as pessoas. Nunca contei a ninguém essa admiração por caixões. Também não tenho catalepsia. Apenas estou em um caixão.

A realização da minha lucidez de que acabaria aqui. Nem saberia quando, nem como, mas sei que acabaria aqui. Nesse espaço limitado, que posso me debater o quanto quiser que não há escapatória. Apelemos de novo para o sentido conotativo para podermos concluir que levei a vida assim. Tudo fechado, limitado e com um final apertado.

Claro que se eu fosse ativista do Greenpeace, vegetariano ou qualquer coisa assim, estaria feliz por ser menos um a prejudicar o meio ambiente. Mas estaria sendo hipócrita porque não estaria realmente com vontade de permanecer aqui.

Agora estou totalmente despido de hipocrisia e armado da mais profunda sinceridade e essa prisão me dá liberdade. Liberdade de pensamento. Eu, enfim, me libertei. E sinto que em breve, estarei mais em liberdade ainda! Estarei livre desse caixão chamado carne, no qual venho me debatendo há anos, e agora, só agora, descobri que a morte é realmente feito um filme de Quentin Tarantino. Rápida, irônica, um espectador acharia engraçado, e eu sou o caixão esperando para receber um golpe. Pode vir, Beatrix Kiddo.

Monday, June 18, 2007

Blues da Amargura

O corpo lívido da bela dama se encolhia fetalmente embaixo dos lençóis. E eu... Ainda não durmo. Ao invés disso, fumo. Queria poder ouvir alguma música, mas a casa não é minha. Resta-me então a cacofonia urbana. Os sons graves de motores, os agudos das buzinas, e os ambulantes são todos sopranos e barítonos.

Até poucas horas atrás, ao invés de toda essa ópera, promovíamos um concerto de rock. Com o rebolado de Elvis, os gemidos de Mick Jagger e o amor de McCartney. Agora nossos corpos despidos já têm uma considerável distância entre si que só tendem a aumentar.

Para expressar a dor dos pensamentos, acho que convém deixar tudo pouco acessível e improvisado, como no bebop. Estaremos eu e ela no restaurante:

-Acho que vou pedir um sorvete...
-Frio que nem você.
-Se é assim... você pretende pedir chocolate amargo?

Minha face abrirá um sorriso sarcástico. O estômago dela irá embrulhar e impropérios serão ditos. Sei que não farei nada, olharei para o prato de comida e alisarei o garfo com a ponta do dedo. Tenho a frieza, mas não tenho o sabor. Ela irá embora em passos furiosos, e não acho que o salto agulha que ela usa aguentará muito tempo.

Acenderei mais um cigarro, uma das únicas coisas que me lembra o que é calor. E mais uma vez aprenderei a lição que todo bom crítico de música sabe: no final, tudo é blues.