Saturday, April 28, 2007

Diálogo pós-morte

- Alô ?
- Sim.
- Maria ?
- É ela mesma, quem fala ?
- É o José...
- Ah, sim, tudo bem ? Que que aconteceu ? Tá com a voz estranha...
- Eu estou bem sim, mas...não sei como te falar isso...
- Ora, fale logo! Está me deixando preocupada !
- O Joaquim...teu irmão...faleceu essa madrugada...
- Ah meu Deus...
- Ele morreu dormindo, não sentiu nada. Não se preocupe
- ...
- De manhã quando acordamos, não vimos ele lendo o jornal. Estranhamos e fomos ao quarto ver o que havia acontecido. Ele estava deitado, meio encolhido. Parecia mais calmo que nunca.
- Meu Deus...Não nos falávamos há anos ! Vocês já sabem como ou porquê aconteceu ?
- Disseram que o coração parou. Só isso.
- Meu Deus...
- Ele viveu bem. Não passou sequer uma semana doente. Não sofreu. Morreu dormindo. Eu mataria para morrer dormindo e sem sofrer como ele...
- Sim, ao menos isso...morreu dum jeito bom, se é que isso existe.
- O velório será naquele cemitério que o vô de vocês tá enterrado. Nunca lembro o nome daquele lugar.
- Ah, sei onde é.
- Vai ser amanhã às nove da noite.
- Às nove da noite ?
- Sim...
- Não tem como ser mais cedo ?
- Não, aparentemente muita gente morreu e os horários estão reservados.
- Até quando você morre tem que ficar na fila ! Esse mundo...
- É...
- Mas olhe, aquela lanchonete de lá fica aberta até essas horas ?
- Acho que sim.
- Que bom, não agüento essas coisas sem tomar um cafézinho. Sabe como é...
- Sei sim. Então você vai ?
- Acho que sim, tenho que ver se arranjo alguém pra gravar a novela para mim, senão não sei como farei...
- Ah, entendo...
- Até amanhã, filho. Você serviu meu irmão muito bem todos esses anos. Deixou de ser caseiro e virou um irmão. Obrigado.
- Magina, não fiz mais que minha obrigação. Até amanhã

(Desligam os telefones)

- Maldita velha hipócrita...

Monday, April 02, 2007

Rotina

Estávamos todos sentados esperando nossas bebidas quando percebemos que estávamos ficando velhos. Enrugados e cansados. Cheirando conhecimento supérfluo que todos têm. Comecei a pensar em tudo que já passamos. Comecei a me perguntar o que fazia naquele lugar, e não achei nenhuma resposta. Queria sentar em minha poltrona e ver as horas passarem vagarosas e tranqüilas. Provavelmente tentaria ler algum livro velho e fedido que já havia lido pelo menos três vezes. Após tantos anos, meus amigos viraram fardos, pesados e incômodos de se carregar.

Quando nos conhecemos, tínhamos necessidade de nos ver. Depois a necessidade tornou-se ansiedade. E depois disso virou cansaço e preguiça de mudar a rotina. E hoje, somos velhos que resmungam de suas vidas e lembram dos dias antigos com olhares nostálgicos e cigarros na mão. Bebemos uísques caros e degustamos vinhos. Somos quase tudo que detestávamos e desprezávamos.

Quando as bebidas chegaram estava um silêncio extremamente confortável na mesa. Queria sair daquele lugar o mais rápido possível. Minhas pernas tremiam de excitação. Estava excitado e nem sabia o porquê. Olhava para seus rostos e parecia que olhava num espelho: via exatamente a mesma expressão. Queríamos conversar, mas se fôssemos fazer alguma tentativa falaríamos de ações na bolsa ou de como foi nosso feriado no interior. Nos tornamos mesquinhos e isso é fato.

- Alguém lembra daquela vez que eu subi na árvore e caí de cabeça ? - Perguntei.
- Lembramos sim, conversamos sobre ela ontem - Respondeu um deles.
-Ahh...

Nossas tentativas de diversão eram no mínimo constrangedoras para o que dava a idéia. Sempre saia do jeito masi errado possível: alguém se machucava, alguém era alérgico a tal coisa, alguém odiava o estilo de música que tocava no lugar, alguém odiava silêncio. Aliás, dizer que odeia silêncio estando conosco é possivelmente a coisa mais idiota de se dizer, já que as nossas conversas têm mais reticências que vírgulas.

Resolvi que essa seria a última vez que sairíamos juntos. Pedi um dose de absinto e tomei de uam vez só. Pedi outra. E depois outra. A única maneira de aguentar aquilo era ficando embriagado. Olhávamos uns nos olhos dos outros e a única cosia que víamos era saudade. Pura nostalgia constrangedora. Quando todos ficamos bêbados nos levantamos para ir embora. Ninguém havia vindo de carro, todos de taxi, sabíamos que ficaríamos bêbados, então achamos melhor não arriscar.

No taxi fui pensando em tudo que poderia fazer sem precisar sair mais com eles, chegava a estar entusiasmado. Fiquei com vergonha imaginando essas coisas e pedi pro taxista parar, queria ir andando até minha casa. Paguei e saí do taxi. A rua silenciosa e suja fazia-me sentir parte dela. Queria abraçá-la, senti-la em todos seus extremos.

Cheguei em casa e deitei no sofá, e logo quando deitei o telefone tocou. O barulho ecoava em minha cabeça e me fazia sentir cada vez mais cansado e sem vontade de atender. Acabei por atender.

- Alô? - disseram
- Sim - respondi
- Chegou bem ?
- Sim, resovli vir andando
- Ah...achei que estivesse cansado.
- E estou.
- Semana que vem no mesmo horário ?
- Sim.