Tuesday, March 27, 2007

Marca Marcada

Kelvin acordou e tirou a camisa de seu pijama da Lacoste. Calçou seus chinelos Havaianas. Caminhou até o banheiro e escovou os dentes usando pasta da Sonrisal. Lavou as mãos com sabonete da Dove. Foi até a cozinha e comeu sorvete da Kibon. Foi se arrumar pro colégio. Combinou o que tinha que combinar... Redley, Nike Shox, casaco da Adidas. Pegou sua mochila da Buffalo e colocou na cabeça seu boné da Hang Loose. Foi pra escola.

Chegou na sala de aula. Sentou logo na frente de quem? Johnny. É, o headbanger da sala, calçando All Star, calça Jeans. Johnny odeia Kelvin porque ele escuta Hip Hop. Kelvin odeia Johnny por ele escutar Metal. Mas o que leva eles a brigar muito é Julie, a linda menina com calça da Gang e pulseira da Livestrong.

No intervalo, todo mundo é bem separado. Johnny e seus amigos de preto nunca falariam com Kelvin. Afinal, headbangers nunca falam com playboys. Headbangers e playboys não falam com o pessoal que tira notas boas e joga xadrez no intervalo. As patricinhas só falam com os playboys porque ambos usam marcas tops. Headbangers odeiam todos e usam apenas roupas e marcas exclusivas de seu grupo. Haveria de ser diferente? Claro que não.

Stephen-metaleiro,Jack-playboy e Robert-estudante esforçado já tentaram andar juntos.Para os grupos, isso foi inadmissível. Após um período em que ignoravam os três, chegaram a um dia a dar uma sova nos três.Stephen,Jack e Robert aprenderam a lição. Cada um no seu grupo, sem falar com o outro. O mundo deles é diferente um do outro (mesmo estando na mesma escola), suas marcas são diferentes (mesmo comprando roupa na mesma loja), a sociedade alternativa de cada um nunca poderá interagir com a do outro, pois é pecado. É crime.

Kelvin nem percebeu isso. Voltou pra casa, bebendo Coca-Cola. Em casa, assistiu sua tv da Philips. O pai chegou momentos depois em seu Chevrolet. Sua mãe foi comprar comida no supermercado Wal-Mart. Comprou muita Coca-Cola. Cerveja Budweiser. A irmãzinha de Kelvin, a Lucy, só brinca de Barbie. E só vê filme da Disney.

Kelvin sobe para seu quarto e passa seu desodorante da AXE, o melhor que tem, segundo o que viu na TV. Já já, ele iria sair pra ir no McDonalds. Saiu de casa, lendo a Playboy que assinava. Era dia da entrega enfim. Bela modelo que escolheram. Claro que aproveitou para ver quais eram os novos sabores da camisinha Jontex, quais perfumes novos que tinham, e aproveitou para pegar o jornal e dar uma olhada se já foi lançada no mercado a bicicleta que ele tanto quer.

Começa a caminhar para o McDonalds. Só que de repente, pane no sistema. Ele vê um jovem muito misterioso. Não conseguiu identificar a marca de sua camiseta, da sua bermuda ou do seu chinelo. Não estava usando pulseira nem da LiveStrong, nem do seu time de futebol. Seus óculos também não pareciam de nenhuma marca que ele conhecia. Kelvin saiu correndo, em pânico, como se tivesse visto um filme de terror. De Hollywood, alugado na Blockbuster, visto no seu DVD da Samsung. Mas eu não culpo Kelvin. Ele podia estar bêbado. Uma pessoa usando roupa sem marca? Existe isso?

Então realmente deve dar muito medo. Será que o Apocalipse já começou? E qual será a marca dele? Quem o comprou? A Coca-Cola? O McDonalds? O DreamWorks? A Redley? Não importa. Contanto que dois dos quatro cavaleiros do Apocalipse usem Nike Shox, e o resto use All Star, que problema tem? Mesmo nosso fim tem que ser com classe. Se eles não usarem nenhuma marca, isso vai ser tão demodé...

Saturday, March 17, 2007

No Restaurante

Cheguei no restaurante e sentei-me na mesa ao lado do bar. As cadeiras rangiam e os
barulhos ocos dos sapatos começaram a me incomodar logo que pisei naquele lugar, o vai-e-vem dos garçons me deixava tonto, toda aquela pressa necessária que para mim era extremamente descartável. Comecei a ficar preocupado, aquele encontro com meu irmão após sete anos começava a me preocupar. Não sabia se ficaríamos atolados naquele silêncio constrangedor ou se lembraríamos dos velhos tempos fumando cigarros e sorrindo com olhares nostálgicos. Talvez ele tivesse se tornado um daqueles caras engomadinhos que só sabem dar nó em gravata e esquecem-se como se amarra um cadarço de tênis por tanto usarem sapatos chiques e confortáveis. Talvez ele ainda guardasse raiva de mim e cospisse na minha cara. Talvez ele me abraçasse e chorasse no meu ombro. Realmente não sei...

Não sei como eles lidaram com a minha fuga.(Que não foi bem uma fuga). Meu pai provavelmente nunca mais olhará para mim. Minha mãe deve ter ficado seca e constantemente triste. Minha irmã deve ter chorado noites à fio. Meu irmão não deve ter me compreendido, e só. Afinal, quem lidaria bem quando seu irmão foge de casa, manda uma carta somente três anos depois dizendo que está bem, mas somente quatro anos depois quer se encontrar com alguém ? Juro que não entenderia. Como não me entendia na época que fugi. Aliás, não chamo o que fiz de fugir, eu somente precisava dum tempo. O que posso fazer se esse tempo seria sete longos anos ?

Meu pai deve ter chorado mais que todos, mas escondido. Ele não me viu crescer, não me
ensinou a dirigir, não me viu levar namoradas para casa. Sinto pena dele até hoje...Às vezes choro imaginando o que eles passaram, mas isso não acontece faz um bom tempo.

Meu irmão já estava atrasado vinte minutos. Não sabia dizer se isso era normal ou não.
Torturavam-me pensamentos de que eu era somente um estranho agora. Meu peito doía, já havia fumado um maço inteiro de cigarros desde que tinha chegado. A boca estava seca, pedi um
suco de maracujá ao garçom, mas no meio do caminho pedi para ele voltar e me trazer um
uísque. Bebi duma vez só.

O cheiro de gordura que vinha da cozinha estava começando a me deixar enjoado. Senpre odiei
essas lanchonetes de beira de estrada.

Uma hora de atraso. Duas horas de atraso. Três horas de atraso.

Todos os meus cigarros estavam no cinzeiro à mesa. Havia bebido meia garrafa de uísque.
Estava olhando para o chão, levantei o olhar e vi ele parado à porta. Levantei-me e quase
caí pelo efeito da bebida. Ele olhou-me com desprezo, correu em minha direção, abraçou-me,
e saiu porta afora. Nunca mais o vi, nem ninguém de casa. E juro-lhes nada me dói mais que
isso.