Prisão Corpórea
Acordou suando frio, a conclusão que obteve após tanto avaliar sua vida na noite anterior o fez ter os sonhos mais atormentadores possíveis. Não suava frio pelos sonhos, nem pela extremidade de sua situação, e sim por esta ser sua única opção mesmo tendo diversas. Sentou-se à sua cama e passou a prestar atenção em todos os barulhos, próximos ou longínquos : desde sua vizinha fazendo sexo às onze da manhã dum domingo– o que lhe fazia sentir mais solitário que nunca –, até ao leve barulho de garoa atingindo a janela de seu quarto calma e pausadamente.
Lembrou-se que havia prometido almoçar com seus primos na casa de sua avó, trocou-se rapidamente; escovou os dentes, calçou o tênis mais confortável que tinha e foi para o banheiro novamente. Parou em frente ao espelho e, por incrível que pareça era possível dizer que estava feliz; sorria para si mesmo, fazia piadas sobre sua aparência e sua barba. Fez tantas piadas que resolveu tirá-la.
Chegou quarenta e cinco minutos atrasado para o almoço na casa de sua avó, seus primos brancos de fome, com certo espanto por causa de seu atraso, sempre prezou pontualidade e chegou atrasado em casa sua avó no dia que ia ver seus primos que não via há quase dois anos. Se ao menos morasse longe eles entenderiam, mas morava pertíssimo, há quatro quarteirões de distância.
Durante o almoço foi risonho, fez piadas, contou segredos que eles nunca pensariam sobre ele. Algo que deixou sua avó muito nervosa foi quando contou quando perdeu sua virgindade num banheiro de escola. A história causou riso em todos, até em sua avó, que após se recuperar do susto riu até saírem lágrimas de seus olhos mais velhos que os três jovens juntos. Pena que tal história nunca aconteceu. Nosso rapaz além de ser ator assaz competente era ótimo contador de histórias.
Quando voltou para sua casa deitou-se no sofá e lembrou-se que não tinha tempo a perder : pegou uma fita adesiva na gaveta de sua mãe, uma caneta em seu estojo, e duas folhas de papel. Em uma delas escreveu a seguinte frase: “Vão para a ponte. Lá, será meu fim e meu começo”. Colou o bilhete no lustre, pegou sua chave na porta-chaves que ficava ao lado da porta e saiu. Mas lembrou-se de uma frase que havia lido num livro e abriu a porta correndo para escrevê-la no papel. A frase era: “Alea jacta est !”*
Caminhou até a ponte ainda com a caneta, a fita adesiva e a outra folha em seu bolso. Chegou lá rapidamente; uma caminhada de trinta minutos, no máximo. Perguntou para uma senhora que passava o horário, “Cinco e quarenta e cinco, meu jovem” respondeu a senhora com um sorriso amável e continuou seu caminho. Tinha quinze minutos para pensar no que fazer. Lembrou-se da garota que nunca beijou, de seus pais, seus primos, sua avó, até de sua professora da primeira série chegou a lembrar-se. Pegou o papel e a caneta e pôs-se a escrever : “Hoje, sem sangue e sem dor, sairei de minha prisão”. Colou o papel na grade que o separava da tormenta, riu-se, e saiu andando.
* : “ A sorte está lançada”
Lembrou-se que havia prometido almoçar com seus primos na casa de sua avó, trocou-se rapidamente; escovou os dentes, calçou o tênis mais confortável que tinha e foi para o banheiro novamente. Parou em frente ao espelho e, por incrível que pareça era possível dizer que estava feliz; sorria para si mesmo, fazia piadas sobre sua aparência e sua barba. Fez tantas piadas que resolveu tirá-la.
Chegou quarenta e cinco minutos atrasado para o almoço na casa de sua avó, seus primos brancos de fome, com certo espanto por causa de seu atraso, sempre prezou pontualidade e chegou atrasado em casa sua avó no dia que ia ver seus primos que não via há quase dois anos. Se ao menos morasse longe eles entenderiam, mas morava pertíssimo, há quatro quarteirões de distância.
Durante o almoço foi risonho, fez piadas, contou segredos que eles nunca pensariam sobre ele. Algo que deixou sua avó muito nervosa foi quando contou quando perdeu sua virgindade num banheiro de escola. A história causou riso em todos, até em sua avó, que após se recuperar do susto riu até saírem lágrimas de seus olhos mais velhos que os três jovens juntos. Pena que tal história nunca aconteceu. Nosso rapaz além de ser ator assaz competente era ótimo contador de histórias.
Quando voltou para sua casa deitou-se no sofá e lembrou-se que não tinha tempo a perder : pegou uma fita adesiva na gaveta de sua mãe, uma caneta em seu estojo, e duas folhas de papel. Em uma delas escreveu a seguinte frase: “Vão para a ponte. Lá, será meu fim e meu começo”. Colou o bilhete no lustre, pegou sua chave na porta-chaves que ficava ao lado da porta e saiu. Mas lembrou-se de uma frase que havia lido num livro e abriu a porta correndo para escrevê-la no papel. A frase era: “Alea jacta est !”*
Caminhou até a ponte ainda com a caneta, a fita adesiva e a outra folha em seu bolso. Chegou lá rapidamente; uma caminhada de trinta minutos, no máximo. Perguntou para uma senhora que passava o horário, “Cinco e quarenta e cinco, meu jovem” respondeu a senhora com um sorriso amável e continuou seu caminho. Tinha quinze minutos para pensar no que fazer. Lembrou-se da garota que nunca beijou, de seus pais, seus primos, sua avó, até de sua professora da primeira série chegou a lembrar-se. Pegou o papel e a caneta e pôs-se a escrever : “Hoje, sem sangue e sem dor, sairei de minha prisão”. Colou o papel na grade que o separava da tormenta, riu-se, e saiu andando.
* : “ A sorte está lançada”
