Monday, August 28, 2006

Ônibus

Sentei-me e encostei a cabeça no vidro, achei que não demoraria muito para adormecer, estava muito cansado, sentindo uma terrível raiva, um tédio indizível, e uma enorme repulsa a todas as coisas que estavam à minha volta. Comecei a ponderar sobre tudo que acontecia, e como acontecia, meu peito doía, minhas mãos tremiam. Quando pensei que ia chorar, vi uma criança e seu pai entrarem no ônibus. A criança tinha um sorriso tão belo e inocente em seu rosto que me fez esconder meu rosto estre as mãos. Resolvi não olhar para eles, mas eles se sentaram na minha frente. Comecei a escutar a conversa deles :

- Pai, sabe o que eu faria se eu fosse rico ? - Disse o menino com sua voz suave e ansiosa.
- O que meu filho ? - respondeu seu pai com aquela voz que todo pai tem que ter : grave e amigável.
- Um monte assim de pirulitos, ó - e abriu seus braços o máximo que pôde. Vendo esta cena eu dei uma risada abafada, lembrava-me de meus primos que ainda eram crianças e de mim em um vídeo de quando pequeno.
- Então meu filho, estude para ser alguém e poder comprar todos esses pirulitos - Disse o pai, e o menino começava a rir descontroladamente, assim, como se tivesse escutado a melhor piada do mundo.

Uma senhora, já com idade avançada, entrou na parada seguinte, e como só havia três pessoas no ônibus e o frio era grande, resolveu sentar-se ao meu lado e disse-me :
- Está muito frio meu jovem, calor humano - E sorriu do jeito que somente senhoras conseguem, com um ar de bondade e sinceridade explicitos em cada centímetro de seu rosto enrrugado pelo tempo. Só respondi com um sorriso tímido, como sempre fazia.

Após isso coloquei-me novamente a escutar a conversa. O menino que agora estava um pouco mais calado dava pulos quando via um carro chique na rua, era uma cena divertida de se ver :

- Pai, quando eu for rico, - Disse olhando sério para o pai - eu vou comprar um carrão desses pro senhor, outro pra mamãe, outro pra mim ! - E o pai pôs-se a rir e disse:
- Deus te ouça meu filho...Deus te ouça...

Não sei como, mas aquele garoto conseguia me fazer feliz, talvez simplesmente por estar feliz ele me deixava feliz. Mas quando percebi que me nutria de sua felicidade fiquei com nojo de mim. A velhinha também estava encantada com o garotinho, e resolveu falar :

- Quantos anos você tem, meu bem ? - disse com aquela voz rouca e animada.
- Tenho quatro - disse o menininho levatando todos os dedos da mão, ao invés de somente quatro, fazendo a senhora rir. Ela tirou uma bala da bolsa e deu para ele dizendo, " Sempre carrego uma balinha, tenho um netinho da sua idade", e acariciou o nariz dele de leve.

O pai do menino e a senhora tiveram uma longa conversa, mas eu não estava interessado neles : o garoto sim era interessante. Até que em um momento ele disse quando um avião nos sobrevoou :

- Pai, quando eu for rico, vou comprar um avião pra cada pessoa que a gente conhece, até pra esse menino aí ! - e apontou para mim. Aquilo me causou uma sensação estranha, senti um ódio repentino por ele e disse, " Não preciso não, obrigado". Depois disso, pedi licensa e disse "Esse é o meu ponto". Dei sinal para o ônibus parar, rapidamente quando ele chegou ao ponto desci, aquela não era a rua que eu ia descer, mas foi lá que eu desci, e também foi a última vez que os vi

Thursday, August 24, 2006

O Velho Mendigo

Todo dia, seguia a mesma rotina : acordava, e começava a andar pelas esquinas pedindo esmolas; fazia isso até o sol esquentar seus ossos, ou até a falta dele fazê-lo tremer de frio. Escolhia um lugar para ficar, e de lá não saia. Pedia esmolas para beber, porém, poucas vezes conseguia dinheiro para comprar bebida, vivia de pães mofados que beatas davam-lhe por pura piedade.

Tal rotina nunca fora mudada, e nem se recordava do tempo em que essa vida era vista como algo repulsivo, algo do qual até em sonhos o enojava e o fazia acordar berrando em noites frias. Mas em um dia em que essa rotina se repetia, resolveu levantar-se e andar, simplesmente andar. As tristes ruas pálidas e lôbregas, faziam-no sentir saudade de sua infância - apesar de não lembrar dela- onde tudo era simples : se tivesse medo, agarrava-se ao seu pai, se ficasse machucado, sua mãe ia até ele e assoprava seu machucado e dizia : " Já vai sarar meu filho". Mas ele não se lembrava dessas coisas, somente viu mães fazerem isso com seus filhos, pois ele, nunca havia sido criança, nascera do chão, filho de ninguém, filho da tristeza, e da solidão, filho de toda a avareza do mundo.

Já havia andado mais de uma hora quando resolveu sentar-se. Começou a imginar como poderia ter sido sua infância, adormeceu ali mesmo, não estava cansado, mas mesmo assim dormiu como há tempos não dormia. Não sonhou, teve um sono leve e relaxado, mas não chegou nem perto de sonhar.

Acordou de súbito, como se estivesse caindo, levantou-se e viu-se no mesmo lugar, desatou a chorar, não por ser mendigo, não por ser miserável, mas por não ter asas. Queria sair dali e poder viver sua desgraça longe de todos, não fazia questão de deixar de ser pobre e não ter onde morar, só não queria mais que o vissem daquele jeito, e então resolveu sair da cidade e nunca mais voltar.

Levantou correndo, não sabia para onde ir, olhou para um lado, e resolveu ir para aquele, começou a correr desenfreado, esquecera-se de tudo, e não ligava para mais nada, as lágrimas escorriam seu rosto sujo, que agora tinha um sorriso formado, e seus dentes podres apareciam, fazendo sua débil face parecer mais amena e menos triste. Correu rápido demais, suas pernas não o acompanhavam, e em sua indizível virilidade instantânea, não viu um semáforo fechar, atingido fora por um carro, morrera lá, na mesma hora, chorando e com um sorriso torto em seus lábios.

Saturday, August 19, 2006

Crônicas Insólitas

Cá, iremos postar algumas crônicas para entretê-los, e para nos divertir, pois se não gostássemos de fazer isso, não faríamos. E caso pense que sua opinião é de suma importância a nós - donos desta coisa - não diria que você está errado, nem tampouco certo, e fecho este pequeno parágrafo desejando uma longa vida a este blog.